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Edição de novembro de 2009

Doping nas Lutas, Artes Marciais e Esportes de Combate

O uso de anabolizantes esteróides é uma realidade entre lutadores de elite

 

Leandro PaivaPor Leandro Paiva (leandropaiva@prontopraguerra.com.br)
Professor de Educação Física
Autor do livro Pronto pra Guerra

Página: http://prontopraguerra.blogspot.com

 

 

 

Pronto Pra GuerraEm 2008, em Manaus, capital do Estado do Amazonas, fui convidado pela Universidade Nilton Lins para proferir palestra sobre Doping nos esportes em geral.

Para minha surpresa, alguns professores de Educação Física e Fisioterapeutas, que também são atletas de Judô, muito me questionaram, afirmando que, pelos testes antidoping serem realizados fora da competição, além dos testes nos eventos competitivos, dificilmente Judocas de alto rendimento lutariam dopados.

Pois bem, qual não foi a naturalidade com que encarei, logo após essa palestra, as notícias de seguidos casos de Judocas sendo pegos em testes antidoping e relatados na mídia geral e especializada.

Inspeções realizadas ao longo de anos entre atletas de todas as modalidades, indicam que os testes antidoping minimizam o uso indiscriminado, mas não cessa, por definitivo, o uso de substâncias ilegais pelos atletas.

Com atletas de modalidades de combate inseridas nos Jogos Olímpicos, não é diferente.

Em 2005, no site da Agência Mundial Antidoping (AMA), www.wada-ama.org (versão em Inglês), havia registro de 162 casos de lutadores dopados (Luta Olímpica, Boxe e Taekwondo).

Esses dados indicam que, por mais que se faça controle "ferrenho", dificilmente os testes inibem por completo o ímpeto dos atletas em conseguir marcas sobre-humanas.

Salientamos que esse número corresponde apenas à quantidade de lutadores dopados. Com conhecimento superior, muitos atletas conseguem driblar os testes, sugerindo que o número de lutadores dopados pode chegar até 3-4 vezes o número de atletas pegos.

Como citado anteriormente, existe referência de doping entre atletas de modalidades de combate inseridas nos Jogos Olímpicos.

Entretanto, cabe uma pergunta: e quando a modalidade não é inserida nos Jogos? Aí, a coisa complica.

Em estudos realizados com lutadores de MMA e Jiu-Jítsu, respectivamente, modalidade profissional e amadora, dá para se ter pequena noção da realidade.

No MMA, os organizadores dos principais eventos ainda disfarçam, e "fingem" realizar o "controle" somente logo antes dos combates.

O problema desse "controle" é que se o atleta tem o mínimo de conhecimento sobre metabolização de fármacos, pode se programar para interromper o uso, de modo que não seja detectada a droga utilizada previamente.

No livro Pronto Pra Guerra, apresento algumas dessas informações para jogar luz na farsa do antidoping para lutadores de MMA.

Utilizo a palavra "farsa", pois atletas com conhecimento superior podem dopar-se e mesmo assim não serem pegos nos testes.

Já no Jiu-Jítsu, não existe absolutamente nenhum controle. Em estudos realizados com praticantes de Jiu-Jítsu e lutadores de nível regional de MMA, foi observado que existe quantidade não desprezível de usuários de esteróides anabólicos androgênicos.

Infelizmente, carecem estudos de longo prazos acompanhando lutadores de nível nacional e internacional dessas modalidades.

No MMA, Amtmann (2004) observou que, dentre um grupo de 28 atletas norte-americanos que se preparavam para um evento regional de Mixed Martial Arts, ao menos 5 reportaram uso de esteróides.

No Jiu-Jítsu, dois estudos realizados com amostras regionais, representam um "microcosmo" do "macrocosmo" do consumo de esteróides entre atletas e praticantes dessa modalidade.

No primeiro (Bedê, 2006), foi observada a prevalência do uso de esteróides anabólicos androgênicos entre praticantes de Jiu-Jítsu do bairro Icaraí, na cidade de Niterói - Rio de Janeiro.

Tradicionalmente, a cidade de Niterói é conhecida no meio da luta pela quantidade e excelência dos centros de prática da modalidade de Jiu-Jítsu.

De um total de 55 praticantes, a prevalência encontrada para o uso de esteróides anabólicos androgênicos foi de 26,43% no grupo dos competidores e quando comparado faixa a faixa a prevalência variou de 9,09% para os faixas branca até 50,00% entre os faixas preta.

A média de idade de início do uso foi de 21 anos. As drogas mais utilizadas foram: Durateston, Deca-durabolim e Winstrol (Obs.: nomes comerciais).

O autor do estudo concluiu que a prevalência do uso de esteróides anabólicos androgênicos foi maior entre os que participavam de competições, além de aumentar proporcionalmente de acordo com a graduação do atleta, ou seja, a prevalência foi maior entre lutadores mais graduados.

Os lutadores alegaram que o principal motivo para o uso foi a melhora do desempenho desportivo. No segundo estudo (Castro, 2004), foi observada a utilização entre os pacientes de uma clínica de medicina do esporte em Florianópolis - Santa Catarina. Nele, verificou-se que, dentre praticantes de diversas atividades, os praticantes de Jiu-Jítsu ficaram em 2.º lugar, atrás apenas dos praticantes de musculação. As drogas mais utilizadas foram: Deca-durabolim, Durateston, Winstrol e Dianabol (Obs.: nomes comerciais).

Outra droga, cujos testes foram utilizados em larga escala nos Jogos Olímpicos de Pequim, foi o GH (em português, Hormônio do Crescimento).

Entretanto, um artigo recente, apresentou discussão relevante, pois os autores verificaram que existe grande variabilidade entre os indivíduos, que deve ser considerada ao indicar um atleta pego no teste. Inclusive, lutadores.

A aplicação de métodos para detecção de doping por GH depende da capacidade de discriminar entre os níveis anormais em razão do doping e limites fisiológicos normais de circulação do indivíduo, que muda em resposta à administração da droga.

A utilidade dos marcadores de abuso do GH depende da identificação dos fatores que regulam a sua concentração no sangue. Dentre outros, destacam-se os fatores demográficos (Locais de origem/desenvolvimento do atleta) que são conhecidos pela influência desses marcadores na população em geral.

Em um grande estudo transversal aplicado em mais de 1000 atletas de elite de 12 países representando 4 grandes grupos étnicos e 10 tipos de esporte, demonstrou que existe uma correlação negativa significativa entre idade e GH, com uma diminuição rápida no início da adolescência.

A idade foi a maior contribuição para a variabilidade, equivalente a mais de 80% da variação atribuível aos testes de detecção (IGF-I e os marcadores de colágeno). Os autores concluíram que a idade e o sexo são os principais determinantes da variabilidade dos testes de GH, enquanto a etnia ("raça") e o tipo de esporte tem influência bem menor.

Portanto, nos testes baseados em IGF-I e nos marcadores de colágeno deve-se considerar a idade para os homens e mulheres. A etnia e o tipo de esporte não são suscetíveis de serem fatores de confusão para estes marcadores.

Leandro Paiva
(Autor do livro “Pronto Pra Guerra – Preparação Física Específica para Luta e Superação”)

Referências

AMA – Agência Mundial Antidoping (www.wada-ama.org - versão em Inglês).

Amtmann, J. Self-Reported Training Methods of Mixed Martial Artists at a Regional Reality Fighting Event. The Journal of Strength and Conditioning Research, v.18, n.1, p.195-196, 2004.

Bedê, P. A prevalência do uso de esteróides androgênicos anabolizantes (EAA) entre praticantes de Jiu-Jitsu. Monografia de graduação em Educação Física apresentada à Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2006.

Castro, S. Uso indevido de esteróides anabólico-androgênicos entre os pacientes de uma clínica de medicina do esporte em Florianópolis - Santa Catarina. Monografia de graduação em Medicina apresentada à Universidade Federal de Santa Catarina, 2004.

Nelson, A.; Ho, K. Demographic factors influencing the GH system: Implications for the detection of GH doping in sport. Growth Hormone & IGF Research, v.19, n.4, p.327-332, 2009.

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O livro Pronto pra Guerra pode ser adquirido pelo site http://www.prontopraguerra.com.br

Pronto pra Guerra

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