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>>Promoção da saúde do idosos: a importância da atividade física
>>Autor: José Maria Santarém
>>Data de publicação: 14/03/01
Para que possamos compreender a importância da
atividade física na promoção da saúde do idoso é necessário analizarmos a
correlação entre atividade física e saúde na população humana em geral.
Atividade física sistemática sempre esteve
ligada à imagem de pessoas saudáveis e vigorosas. Durante muito tempo
coexistiram duas interpretações para a associação de saúde com atividade física.
Alguns imaginavam que pessoas geneticamente privilegiadas seriam mais propensas
à atividade física por apresentarem constitucionalmente boa saúde, vigor físico
e disposição mental. Outros acreditavam que a atividade física poderia ser o
estímulo ambiental responsável pela ausência de doenças, boa aptidão física
e saúde mental. A literatura científica atual permite concluir que a verdade
aparentemente associa as duas hipóteses. Em todos os estudos populacionais
sempre existem os indivíduos que se afastam da média, quaisquer que sejam os
parâmetros analizados. Pessoas geneticamente privilegiadas sempre existiram e são
estas pessoas que se destacam nas diversas atividades humanas. No caso da
atividade física, embora nem todos possam ou queiram destacar-se como modelos
de desempenho, existe hoje documentação científica de que as pessoas ativas
diminuem a probabilidade de desenvolverem importantes doenças crônicas, e
melhoram os seus níveis de aptidão física e disposição mental.
Estudos populacionais criteriosos permitiram
estabelecer relações de causa e efeito entre atividade física e a menor incidência
de algumas doenças, destacando-se a doença coronariana, a hipertensão
arterial, diabetes do tipo II, obesidade, osteoporose, neoplasias do colon,
ansiedade e depressão. Alguns estudos associam pouca atividade física com
altas taxas de mortalidade por todas as causas, e estima-se que 250.000 mortes
por ano nos Estados Unidos da América poderiam ser evitadas por atividade física
habitual. Particularmente com relação à doença coronariana critérios
epidemiológicos clássicos para associação causal foram atendidos:
- Consistência: os estudos quase que
invariavelmente associam pouca atividade física com fatores de risco para doença
coronariana.
- Força: o risco relativo de doença
coronariana aumenta 1.5 a 2.4 vezes nas pessoas inativas, níveis semelhantes
aos observados para a hipercolesterolemia, a hipertensão arterial e o
tabagismo.
- Sequência temporal: a inatividade física
tem sido constatada anteriormente ao estabelecimento da doença coronariana.
- Dose resposta: a maioria dos estudos
demonstram que a incidência de doença coronariana aumenta na medida em que a
atividade física dominui.
- Coerência: vários mecanismos
conhecidos explicam os efeitos da atividade física na redução da incidência
da doença coronariana.
Alguns dos efeitos salutares da atividade física
são o aumento do HDL-colesterol, a redução dos triglicerídeos, redução da
pressão arterial e da tendência à arritmias pela diminuição da
sensibilidade à adrenalina, redução da agregação plaquetária e estímulo
à fibrinolise, aumento da sensibilidade das células à insulina, estímulo ao
metabolismo dos carboidratos, estímulo hormonal e imunológico, redução da
gordura corporal devido ao maior gasto calórico e tendência à elevação da
taxa metabólica pelo aumento de massa muscular.
Aspecto relevante é que esses benefícios
parecem ser comuns à qualquer tipo de atividade física, entendida como contração
muscular, geralmente levando ao movimento e sempre com gasto calórico. Assim
sendo, são esperados os mesmos efeitos salutares advindos do trabalho braçal,
das diversas modalidades esportivas, do lazer com atividades físicas e dos
programas sistematizados de condicionamento físico. Qualidades de aptidão como
coordenação, velocidade, força, flexibilidade, potência, resistência e parâmetros
de condição aeróbia são estimuladas de forma diferente pelas diversas formas
de atividade física, mas esses parâmetros não se relacionam especificamente
com a qualidade ou magnitude dos efeitos salutares obtidos. Desta maneira, as
atividades físicas distinguem-se pelo tipo e grau de aptidão estimulada mas não
pelos efeitos na saúde das pessoas. O único parâmetro que mantem
proporcionalidade com os efeitos salutares é o gasto calórico das atividades,
embora a relação não seja constante. Em outras palavras, quanto mais calorias
forem gastas em atividade física habitual maiores serão os benefícios para a
saúde, mas as maiores diferenças na incidência de doenças ocorrem entre os
sedentários e os pouco ativos. Entre estes e as pessoas mais ativas, a diferença
não é grande. O mínimo de atividade física necessário para reduzir a incidência
de doenças é de 200 Kcal/dia em média. Assim sendo, atividades mais intensas
podem ser realizadas em períodos mais curtos e menos frequentes, enquanto que
atividades menos intensas precisam ser mais prolongadas e/ou mais frequentes.
Diante desses conhecimentos espera-se dos
profissionais de saúde que estimulem as pessoas a adotarem um estilo de vida
mais ativo, mas a escolha da atividade física deve ser feita em bases
individuais, considerando-se alguns aspectos importantes:
- Preferência pessoal: Qualquer
atividade física somente será útil para a saúde quando for constante, e a
aderência depende do prazer que a pessoa sente com ela. Trabalho braçal doméstico
ou não, recreação ativa, esportes e programas de condicionamento em academias
ou em casa são algumas das opções mais frequentes.
- Aptidão necessária: As diversas
atividades físicas exigem um mínimo de aptidão para serem realizadas. Quando
este nível é alto, como por exemplo serrar vigorosamente, carregar objetos
pesados, caminhar em terreno íngreme, remar embarcações pesadas, correr
velozmente, realizar movimentos violentos, cair ao chão e prolongar esforços
aparentemente suaves, a pessoa deve iniciar um programa sistematizado de
condicionamento físico gradual com o objetivo de desenvolver as qualidades de
aptidão necessárias.
- Risco de patogenia: Traumas músculo-esqueléticos
são mais comuns em atividades que envolvam saltos, arremessos, acelerações e
desacelerações violentas, torções articulares, quedas, impactos e movimentos
excessivamente repetidos. Fenômenos trombóticos são predispostos pelas
atividades prolongadas ao sol, que se acompanham de desidratação e acidose.
Necrose isquêmica de vilosidades intestinais e de papilas renais com
consequente perda crônica de sangue podem ocorrer nas atividades excessivamente
prolongadas. Isquemia do miocárdio pode ocorrer quando a frequência cardíaca
sobe acima dos limites de tolerância individuais. Rotura de aneurismas ou de
vasos cerebrais ateroscleróticos podem ocorrer quando a pressão arterial sobe
muito durante a atividade. Depressão hormonal e imunológica podem ser uma
consequência de altos volumes de atividade física sem recuperação adequada
do organismo.
No caso das pessoas idosas, a importância da
atividade física é grande e deve ser avaliada em vários aspectos:
- Profilaxia de doenças: Evidentemente
continuam sendo úteis todos os efeitos salutares da atividade física
anteriormente elencados, mesmo quando a pessoa nunca foi ativa. A partir do
momento em que a pessoa inicia a atividade física, começam a melhorar os seus
fatores de risco para doenças crônicas.
- Tratamento de doenças: Quando já
existem doenças estabelecidas como artrose, diabetes, osteoporose ou hipertensão,
a atividade física pode ser um importante recurso auxiliar no tratamento.
- Melhora da qualidade de vida: Uma boa
qualidade de vida é entendida do ponto de vista orgânico como a condição de
conseguir realizar os esforços da vida diária e não apresentar grande quebra
de homeostase durante as atividades. O sedentarismo prolongado que ocorre em
muitos idosos leva à uma diminuição gradativa de todas as qualidades de aptidão
física, comprometendo a qualidade de vida. Do ponto de vista psicológico a
atividade física pode ajudar no combate à depressão, atuando como um
catalizador de relacionamento interpessoal, produzindo agradável sensação de
bem estar, e estimulando a autoestima pela superação de pequenos desafios.
A escolha da atividade física para pessoas
idosas é um aspecto mais complexo do que no caso de pessoas mais jovens.
Considerando que muitos idosos são sedentários há muitos anos, a perda de
aptidão costuma impossibilitar muitas atividades que poderiam ser prazeirosas
para a pessoa. Por outro lado, a possivel presença de osteopenia, artrose,
instabilidades articulares, aterosclerose, diabetes e hipertensão arterial também
limita a escolha da atividade física, devido ao risco de intercorrências patológicas.
No caso de idosos muito debilitados, o simples caminhar pode representar uma
atividade de risco devido à possibilidades de quedas. Por estas razões, os
programas sistematizados de condicionamento físico, adequados para casos
individuais, podem ser a melhor opção para a atividade física de idosos.
Os programas de condicionamento físico para
idosos devem ser delineados considerando-se a eficiência, a segurança e os
aspectos motivacionais.
- Eficiência: Os exercícios que melhor
estimulam o aumento da massa óssea, aumento da massa muscular, e aumento da
mobilidade articular são os mais eficientes para idosos.
O aumento da massa óssea diminui a
probabilidade de fraturas.
O aumento da massa muscular tem vários
benefícios: eleva a taxa metabólica basal, facilitando a redução do tecido
adiposo; aumenta a quantidade de tecido com sensibilidade à insulina aumentada
e portanto captador de glicose; aumenta a proteção de articulações
anatomicamente instáveis por sedentarismo, procesos degenerativos ou inflamatórios,
diminuindo as dores; diminui a possibilidade de quedas por facilitar a recuperação
postural nas situações de desequilíbrios do corpo; possibilita a realização
de tarefas comuns que exigem força muscular, como levantar de cadeiras, subir
escadas e deslocar objetos pesados; diminui a frequência cardíaca e a pressão
arterial durante os esforços da vida diária. Este último efeito se deve a que
pessoas mais fortes utilizam menor número de fibras musculares para realizar as
atividades físicas, fazendo com que seus esforços sejam sempre de menor
intensidade do que os esforços de pessoas mais fracas, nas mesmas tarefas.
O aumento da mobilidade articular
permite a realização de atividades comuns da vida diária, frequentemente
impossibilitadas nos idosos sedentários por diminuição da flexibilidade.
- Segurança: Os exercícios utilizados
precisam ser basicamente seguros do ponto de vista musculo-esquelético e
cardiovascular.
A segurança musculo-esquelética é
assegurada por exercícios compatíveis com as amplitudes articulares
encontradas, e que não levem aos fatores de risco para lesões anteriormente
citados.
A segurança cardiovascular depende de
que os exercícios não aumentem excessivamente a frequência cardíaca ou a
pressão arterial.
- Motivação: Para garantir a motivação
os exercícios devem ser agradáveis, sem desconforto articular ou respiratório.
Para a maioria das pessoas é estimulante a conquista de pequenos desafios, o
que também reforça o sentimento de progresso. A interação interpessoal deve
ser possivel.
Classicamente os programas de condicionamento físico
para grupos especiais utilizam exercícios aeróbios, que são atividades de
baixa intensidade relativamente prolongadas. Isto sempre se justificou pelo fato
de que nos exercícios mais comuns como correr, pedalar e nadar, que são
realizados de forma contínua, as atividades de alta intensidade implicam em
maiores velocidades de movimentos e maiores frequências cardíacas, aumentando
os fatores de risco para intercorrências patológicas tanto musculo-esqueléticas
como cardiovasculares.
No entanto, a grande eficiência em estimular a
massa muscular e óssea apresentada pelos exercícios localizados com carga,
chamados genericamente de exercícios resistidos e geralmente realizados com
pesos, chamou a atenção de pesquisadores para a possibilidade de sua utilização
em promoção de saúde, particularmente no caso de idosos onde a osteopenia e a
sarcopenia são importantes. Esta idéia foi estimulada pela constatação de
que a mobilidade articular geralmente limitada dos idosos também melhorava
rapidamente.
Resistência natural à esta proposta ocorreu
devido à que os exercícios com pesos são anaeróbios de alta intensidade, e
também devido ao conhecimento de que a pressão arterial pode aumentar
excessivamente nesses exercícios. No entanto, os estudos realizados com critérios
científicos para esclarecer o assunto documentaram não apenas a eficiência
mas também a segurança dos exercícios com pesos bem orientados para idosos,
pessoas debilitadas ou doentes. Verificou-se que os inconvenientes dos exercícios
de alta intensidade somente são válidos para os exercícios contínuos. Mais
recentemente, as evidências epidemiológicas de que não apenas os exercícios
aeróbios produzem efeitos salutares como pensavam alguns, vem estimulando a
utilização dos exercícios resistidos em programas para promoção de saúde,
não apenas em reabilitação geriátrica.
Com relação à segurança músculo-esquelética
dos exercícios resistidos, alguns aspectos atualmente documentados são
relevantes: a intensidade alta é dada pelo aumento da resistência aos
movimentos e não pelo aumento da velocidade, o que evita vários fatores de lesão;
os pesos ou outras formas de resistência aos movimentos constituem sobrecargas
de treinamento com ampla margem de segurança, apenas apresentando efeitos
lesivos quando excessivos e impeditivos dos movimentos biomecanicamente
corretos, o que é facilmente identificado em treinamento; os pesos nos
aparelhos podem ser adequados sem dificuldades aos níveis de força das
pessoas, e podem induzir esforço menor do que suportar o peso do próprio corpo
para caminhar; a amplitude dos movimentos pode ser facilmente adequada às
limitações articulares apresentadas; os movimentos são lentos e cadenciados,
sem mudanças de velocidade ou direção, sem risco de quedas ou de trauma
direto.
A boa margem de segurança cardiovascular dos
exercícios resistidos está atualmente documentada e se deve à vários
fatores: a pressão arterial somente apresenta elevações perigosas quando
ocorre a contração muscular máxima, que tende para a isometria em apnéia, o
que é facilmente evitado em treinamento; nas repetições que antecedem a
contração muscular máxima a pressão arterial aumenta dentro dos limites de
segurança para a maioria das pessoas; em relação aos exercícios contínuos,
o maior aumento da presão arterial diastólica durante os exercícios com pesos
contribui para aumentar o fluxo coronariano para o miocárdio; a determinação
das cargas de treinamento mais eficientes pode ser feita por tentativas
sucessivas, sem testes de carga máxima, embora se saiba que geralmente
correspondem à 80 % do peso possivel para uma repetição; estes níveis de
carga geralmente permitem cerca de oito repetições, e sem a contração
muscular máxima produzem aumento discreto da frequência cardíaca. Assim
sendo, o duplo produto (pressão arterial sistólica x frequência cardíaca) no
treinamento com pesos é baixo, já tendo sido documentado que o treinamento
esportivo com pesos apresenta menor estresse cardiocirculatório do que o
caminhar rápido em plano levemente inclinado.
Atualmente os programas de condicionamento físico
para idosos estão enfatizando cada vez mais os exercícios resistidos.
Numerosos trabalhos documentam rápida melhora em aptidão física para a vida
diária, na composição corporal e na taxa metabólica. Recente trabalho
documentou que idosos que envelheceram correndo ou nadando apresentaram o mesmo
nível de hipotrofia muscular de idosos sedentários, enquanto que idosos que
envelheceram treinando com pesos apresentaram níveis de massa muscular compatíveis
com os de pessoas muito mais jovens. Sabe-se que a hipotrofia muscular de idoso
ocorre nas fibras brancas, não estimuladas pelos exercícios aeróbios. Aspecto
que vem sendo muito valorizado é a grande oportunidade de socialização
proporcionada pelas sessões de exercícios com pesos. Isto se deve à que os
exercícios, embora individuais, são realizados em grupos, onde cada pessoa se
sente companheira da outra, com um objetivo comum que é o treinamento. Os exercícios
não produzem sensação de cansaço respiratório e são interrompidos para
intervalos de descanso, favorecendo a interação verbal entre as pessoas.
Ainda no campo da investigação, estão sendo
estudados atualmente os possiveis benefícios do treinamento com pesos em
reabilitação cardíaca. A idéia não é fortalecer o coração com este tipo
de exercício, mas sim protege-lo. Muitas vezes um coração doente pode não
responder ou não suportar o treinamento aeróbio clássico. O fortalecimento
dos músculos esqueléticos com exercícios resistidos suaves e gradativos
diminui a solicitação cardíaca durante as atividades da vida diária, pelo
mecanismo da diminuição da intensidade relativa dos esforços, com importante
efeito na qualidade de vida e na profilaxia de intercorrências patológicas.
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>>Autor: José
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>>Email: jmsantarem@terra.com.br
>>Página na internet: http://www.saudetotal.com/santarem.htm
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