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>>Musculação para adolescentes
>>Autor: José Maria Santarém
>>Data de publicação: 14/03/01
Este tema tem sido tratado de
maneira inadequada em nossa imprensa, com matérias exagerando os riscos do
treinamento com pesos para adolescentes. Desta maneira, muitos jovens podem
estar sendo afastados de uma atividade física que como qualquer outra é
promotora de saúde e aptidão.
Inicialmente deve ser
esclarecido que os riscos do treinamento com pesos para crianças e adolescentes
já estão bem estabelecidos em literatura científica e são menores do que em
muitas outras atividades físicas consideradas seguras. Atualmente não se
admite mais que afirmações e condutas sejam baseadas em hipóteses teóricas,
sem a preocupação de buscar fundamentação em resultados de trabalhos científicos,
ou pelo menos nas impressões pessoais de quem tem experiência na área. Esses
resultados ou impressões são as chamadas "evidências" ou seja,
respostas da natureza que podem indicar com mais segurança onde está a
verdade. Não existem evidências de que a musculação para adolescentes seja
muito perigosa. Como em toda atividade física alguns riscos existem, mas são
poucos e facilmente evitáveis.
Uma das afirmações mais
comuns encontradas em publicações não especializadas é a de que o desejo dos
adolescentes aumentarem a massa muscular é anormal ou patológico. Não
conhecemos estudos de psicologia que justifiquem essa afirmação. A impressão
de muitos profissionais envolvidos com jovens praticantes de musculação é que
não existe nada de anormal com esses adolescentes. Nossa opinião pessoal é de
que a auto-afirmação entre adolescentes é uma necessidade mais do que um
desejo. Nesse sentido, a única preocupação que os adultos devem ter com esses
jovens é no sentido de evitar que essa necessidade seja canalizada
exclusivamente para uma área, seja esportiva ou intelectual, em detrimento de
uma formação global do indivíduo.
O prejuízo ao crescimento
estatural dos adolescentes praticantes de musculação é freqüentemente
apresentado como um risco do que chamam de "excesso de musculação".
Não há como definir o que seja "excesso de musculação". O
desempenho atlético em geral parece ser diretamente proporcional à massa
muscular, e para os padrões estéticos de muitos, quanto mais músculos,
melhor. Na realidade, excesso de treinamento é o que deve ser evitado.
Atividade física excessiva de qualquer tipo pode diminuir a produção dos hormônios
sexuais, o que é um dos indicadores da situação conhecida como
"over-training". Nessa situação, o ganho de massa muscular diminui,
pode ocorrer atraso no desenvolvimento das características sexuais secundárias,
mas o que acontece com o crescimento estatural dos adolescentes não é
conhecido. Uma das possibilidades é que ocorra um aumento da estatura, pois os
hormônios sexuais fecham as epífises ósseas. Na musculação, todos os técnicos
e professores bem formados sabem que o excesso de treinamento deve ser evitado
para que possa ocorrer aumento adequado de massa muscular. Assim sendo, excesso
de treinamento não é comum na musculação, sendo muito mais freqüente em
outras atividades esportivas ou mesmo recreacionais.
O treinamento para hipertrofia
também tem sido apontado como indesejável para adolescentes com a
justificativa de que pode produzir lesões ou mesmo doenças. No entanto, não há
evidências de que o treinamento para hipertrofia esteja associado com prejuízos
para a saúde. A tendência atual é utilizar treinamento para hipertrofia para
todos os objetivos da musculação. Força, potência e resistência musculares
são qualidades de aptidão inseparáveis do aumento em volume dos músculos
esqueléticos. O aumento da taxa metabólica e uma melhor capacidade homeostática
bioquímica dependem diretamente da massa muscular. Os exercícios com baixas
repetições oferecem a melhor associação de qualidades possíveis de serem
estimuladas pela musculação, além de maior segurança cardiovascular. Por
essas razões, pessoas idosas, debilitadas e convalescentes estão atualmente
sendo orientadas em treinamento para hipertrofia. Não há evidências
sugestivas e não é sensato imaginar que adolescentes não possam fazer o que
fazem os idosos.
Algumas lesões podem ocorrer
na prática da musculação, mas não são freqüentes. Nos EEUU, onde 45 milhões
de pessoas se exercitam regularmente com pesos, menos de 1% das consultas médicas
em serviços de emergência são devidas a lesões em treinamento com pesos. Além
disto, a maioria das lesões ocorrem nos levantamentos de peso competitivos e não
no treinamento com pesos. Lesões graves das epífises ósseas e fraturas são
muito raras. Estatísticas mostram que lesões como as distensões de músculos
e ligamentos podem ser precipitadas pelo uso de cargas excessivas, treinamento
mal orientado e equipamento mal projetado. Cargas excessivas em musculação são
aquelas que impedem a execução correta dos movimentos, sendo a sua utilização
um erro técnico primário, detectado por qualquer instrutor. Ao contrário,
esforços excessivos são freqüentes e inevitáveis em atividades como o
futebol e outros jogos com bola. Tais esforços produzem as mesmas lesões
encontradas na musculação, com muito mais freqüência, e a mídia não parece
estar preocupada com elas.
Praticantes de todas as
modalidades esportivas também costumam freqüentar academias de musculação, e
se muitos deles apresentam lesões, isto não significa que tais lesões tenham
sido produzidas pelo treinamento com pesos. Na verdade, o treinamento com pesos
pode ser terapêutico para muitas lesões esportivas, e também profilático.
Esportistas em geral, incluindo crianças, apresentam menor incidência de lesões
em suas modalidades quando estão protegidos pelo fortalecimento muscular
induzido pelo treinamento com pesos. A elasticidade dos músculos submetidos ao
treinamento para hipertrofia aumenta, ao contrário de afirmações que às
vezes encontramos, e não há evidências de que as articulações possam ser
prejudicadas por qualquer mecanismo. Os tendões são fortalecidos pelo
treinamento para hipertrofia, e as rupturas às vezes apresentadas por atletas
em esforço máximo são, provavelmente, devidas ao uso de anabolizantes. Também
não existe a mais remota evidência de que lesões cardíacas possam ser atribuídas
ao treinamento com pesos, com ou sem excessos.
Outro erro comum é confundir
suplementos alimentares com drogas anabolizantes, ou imaginar que a utilização
de suplementos possa ser o primeiro passo em direção às drogas. A impressão
da maioria dos profissionais envolvidos nessa questão é que os suplementos
podem afastar os praticantes das drogas, por satisfazerem a necessidade psicológica
que algumas pessoas têm de utilizar algum "aditivo" ao treinamento.
Esses produtos são alimentos industrializados que têm a qualidade de trazer
praticidade para a alimentação dos esportistas, embora as suas apresentações
em pó, comprimidos, líquidos concentrados ou cápsulas lembrem remédios. Não
existem evidências de prejuízos reais à saúde decorrentes do uso sensato de
suplementos alimentares.
O maior risco para a saúde dos
esportistas em geral é a tentação do uso de drogas que possam favorecer o
desempenho ou os resultados do treinamento. Entre essas, as mais utilizadas são
os esteróides ou andrógenos anabolizantes. Entre seus efeitos estão a
hipertensão arterial, dislipidemia, aterosclerose, tromboses, infartos cardíacos,
acidentes vasculares cerebrais, hemorragias digestivas, gangrenas, esterilidade,
hipogonadismo, hepatite, degeneração hepática, estímulo para alguns tipos de
tumores, agressividade excessiva e depressão grave. Fato inegável é que
muitos praticantes de musculação são usuários dessas drogas, mas deve ser
lembrado que em outras áreas esportivas os mesmos produtos são amplamente
utilizados. Apesar disto, não se pode condenar o esporte em função de que
muitos de seus adeptos utilizam drogas. Também muitos são os exemplos de
homens e mulheres que redefiniram suas vidas no sentido da saúde em função da
prática esportiva. Todos os setores da nossa sociedade estão permeados pela
utilização de drogas em geral, seja por razões de estímulo para produção
artística e intelectual, desempenho físico ou simplesmente prazer. Esse
panorama inclui o tabaco e o álcool, responsáveis por muitas doenças, mortes
e dramas sócio-familiares.
As drogas constituem hoje uma
das mais sérias ameaças à saúde das pessoas, e nesse sentido, a promoção
de um estilo de vida saudável pode ter efeito antagônico ao problema. A
musculação tem a qualidade de cativar as pessoas, e a adolescência é uma época
em que as experiências de vida são particularmente marcantes. Assim sendo,
desestimular os jovens da prática da musculação pode significar a perda de
uma forte motivação para o caminho da saúde física e mental.
>>Autor: José
Maria Santarém
>>Email: jmsantarem@terra.com.br
>>Página na internet: http://www.saudetotal.com/santarem.htm
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