|
>>Artigos >>Nacionais
>>Exercício Físico e Osteoporose
>>Autor: José Maria Santarém
>>Data de publicação: 14/03/01
Embora em termos de saúde pública, em muitos
paises, existam doenças mais importantes do que a osteoporose, é um fato que
considerável parcela da população dessas nações apresenta ou virá a
apresentar consequências mais ou menos graves da diminuição da massa óssea.
Estima-se que nos Estados Unidos da América do Norte o número de pessoas com
osteoporose esteja entre 15 e 20 milhões, levando à uma incidência anual média
de 1,3 milhões de fraturas, com o custo aproximado de 3,8 bilhões de dólares.
A idade crítica para as mulheres, com relação à osteoporose, é a menopausa,
e para os homens, os 80 anos. A perda óssea em mulheres começa aos 35 anos e
progride 1% ao ano até a menopausa. Nos 4 à 5 anos após o término das
menstruações, as mulheres perdem de 2 à 4 % ao ano, e depois voltam aos níveis
de perda em torno de 1 % ao ano. Nos homens a perda começa aos 45 anos e é
cerca de 0,5 % ao ano, continuadamente. A importância clínica da osteoporose
está no aumento da incidência de fraturas. A osteoporose tipo I (pós-menopausa)
manifesta-se com fraturas principalmente de rádio e vértebras. A osteoporose
tipo II (senil) manifesta-se mais com fratura do colo do fêmur, em pessoas
acima dos 60 anos. Aos 70 anos de idade, 25 % das mulheres apresentam fraturas
de corpos vertebrais, às vezes assintomáticas.
A massa óssea depende de fatores genéticos,
nutricionais, hormonais e ambientais, sendo críticos os níveis de atividade física
(Christiansen,
1995; Johnston,
1995; Kreipe,
1995; Silver
& Einhorn, 1995; Zigler
et al, 1995). Algumas pessoas, geralmente mulheres brancas, apresentam
geneticamente poucos receptores para vit. D, o que leva à absorção intestinal
de cálcio diminuida. Nessas pessoas a ingestão ideal de cálcio e vit. D pode
ser importante para a manutenção da massa óssea, particularmente das
primeiras duas décadas de vida. Nesse período atinge-se a máxima massa óssea
possivel, que posteriormente tende a diminuir. Níveis adequados de atividade física
na juventude também são importantes para que as pessoas alcancem uma boa massa
óssea máxima, que se admite ser o parâmetro mais importante para se prever a
osteoporose futura. Na meia idade, a baixa ingestão de cálcio e a falta de
atividade física levam à diminuição progressiva da massa óssea. Na
menopausa o fator crítico é a queda dos níveis de estrógeno, o que diminui a
absorção intestinal de cálcio e aumenta a sensibilidade dos óssos à ação
de absorção do paratormônio. Como os homens costumam manter atividade física
de maneira mais consistente do que as mulheres, e como não há queda abrupta na
produção dos hormônios sexuais, os problemas da osteoporose aparecem em idade
mais avançada no sexo masculino. Para as mulheres na menopausa, a maior parte
dos estudiosos do tema preconizam atualmente a reposição hormonal, exercícios
físicos e ingestão adequada de cálcio e vit.D. Diagnosticada a osteoporose, o
tratamento geralmente inclui drogas como a calcitonina, o fluoreto de sódio, os
bifosfonatos, e outras, dependendo da condição ser do tipo I ou II.
Como vimos, os exercícios físicos (Fielding,
1995; Kohrt,
1995; Lohman
et al, 1995; Martin
& Houston, 1987; Smith
& Raab, 1986; Stone,
1988) fazem parte tanto da profilaxia da osteoporose, na juventude e na
idade adulta, como também do tratamento. A exata maneira pela qual os exercícios
físicos exercem estímulos ao aumento da massa óssea ainda não está
esclarecida. Sabe-se que dois fatores são importantes: a tensão dada pelo
suporte de cargas e a contração muscular, sendo o primeiro mais atuante do que
o segundo. Pessoas acamadas que realizavam 4 horas diárias de exercício
intenso em cicloergômetro, deitados de costas, não conseguiram reverter a
perda óssea da inatividade. Por outro lado, pessoas nas mesmas condições que
conseguiam permanecer em pé durante 3 horas diárias, impediram a perda óssea.
Estudos com atletas também permitiram algumas observações importantes: o
aumento da densidade óssea ocorre nas regiões estimuladas por sobrecarga
gravitacional ou por contrações musculares razoavelmente intensas.
Verificou-se que a natação produz massa óssea ligeiramente acima do normal,
discretamente superada por "jogging" e caminhadas. Futebolistas e
corredores de velocidade vem a seguir, com maior massa óssea. Acima desses
atletas aparecem os corredores de longa distância, e com ainda maior massa óssea,
os atletas treinados com pesos. Os mais altos níveis de densidade óssea
ocorrem entre levantadores de peso. Essas observações permitem concluir que os
efeitos osteogênicos dos exercícios parecem ser máximos nos esforços curtos
de alta intensidade ou nos esforços moderados de longa duração. Atividades
muito suaves ou sem ação da gravidade não produzem aumento significativo de
massa óssea. A possibilidade de que fatores genéticos e nutricionais fossem
variáveis de confusão na comparação entre atletas e sedentários parece ser
anulada pela observação de que tenistas e outros atletas com padrão assimétrico
de desempenho, apresentam maior massa óssea no membro dominante. Tenistas
chegam a apresentar 30 % mais espessura na cortical dos ossos do braço e
ante-braço dominantes em relação ao lado oposto. Maior densidade óssea no
ante-braço ocorre apenas nas atividades que envolvem esforços intensos com as
mãos.
Alguns estudos permitiram identificar
mecanismos pelos quais os exercícios físicos estimulam o aumento de massa óssea.
O processo de remodelagem do osso ocorre quando as forças mecânicas dobram
ligeiramente o órgão, produzindo cargas elétricas negativas na região côncava
e positivas na convexa. Cálcio e fósforo acumulam-se na região côncava e são
reabsorvidos da região convexa. Imagina-se que a hipertrofia do osso em função
do exercício segue o modelo da hipertrofia muscular: o stress físico
produziria micro-lesões; os osteoclastos removeriam as estruturas lesadas; os
osteoblastos reporiam matriz calcificada na área, em maior quantidade do que a
removida. Excesso de destruição levaria ao enfraquecimento do osso devido à
incapacidade dos osteoblastos repararem as micro-lesões. Tal como em toda forma
de sobrecarga, os níveis de intensidade para produzir incrementos da função
solicitada são acima dos níveis habituais de homeostase e abaixo dos níveis
de lesão. No músculo esquelético já se identificou uma substância mitógena
produzida pela lesão celular no exercício, e que atua no processo de aumento
de massa muscular. Imagina-se que as micro-lesões da sobrecarga tensional
estimule o tecido ósseo a produzir alguma substância estimulante da osteogênese.
Outra possibilidade é um mecanismo alternativo ou sinérgico ao anterior, onde
se postula a existência de mecanoreceptores no osso, regulados por hormônios
sexuais, que transformariam estímulos de tensão em estímulos bioquímicos
para a osteogênese. Sabe-se que os exercícios funcionam melhor como
estimulantes da osteogênese na presença de hormônios sexuais. Um aspecto
relevante é que os exercícios aumentam os níveis de hormônios sexuais e hormônio
do crescimento proporcionalmente à sua intensidade. Os exercícios com pesos são
os mais eficientes para aumentar a massa óssea, e também os que mais estimulam
esses hormônios anabolizantes. A relação testosterona / cortisol reflete o
estado anabólico e está aumentada significantemente nos exercícios com pesos,
contribuindo para o aumento da massa muscular e óssea. Excesso de treinamento
produz efeitos contrários. Similarmente ao aumento da sensibilidade à insulina
produzida pelos exercicios físicos, imagina-se uma maior sensibilidade do
tecido ósseo aos hormônios estimulantes da mineralização, induzida
particularmente pelos exercícios com cargas, e provavelmente pelo mecanismo de
aumento numérico de receptores hormonais.
Atualmente sabe-se que os execícios com pesos
não são apenas os mais eficientes para aumentar a massa óssea, mas também
para aumentar a massa e a força dos músculos esqueléticos. Adicionalmente,
melhoram a flexibilidade e a coordenação, evitando quedas em pessoas idosas,
que poderiam produzir fraturas em ossos osteoporóticos. Outra qualidade dos
exercícios com pesos que justifica a sua utilização nas faixas etárias onde
a osteoporose constitui problema, é a sua segurança. A incidência de lesões
é muito reduzida em função da ausência de choques entre pessoas, de
movimentos violentos, e mínimo risco de quedas. Também se demonstrou que a
segurança cardiológica nos exercícios com pesos bem orientados é superior à
de exercícios de média intensidade realizados de maneira contínua, onde o
aumento da frequência cardíaca pode ser fator patogênico importante.
Resumindo a situação dos exercícios físicos
em relação à osteoporose: a sua importância é grande tanto para a
profilaxia quanto para o tratamento dessa condição. A sua utilização deve
ocorrer desde a infância, nos anos onde se atinge a massa óssea máxima. Por
mecanismos ainda pouco esclarecidos, os exercícios mais eficientes são os que
implicam em suporte de cargas e contrações musculares fortes. Dentre esses
tipos de exercícios, os mais seguros e práticos são os exercícios com pesos.
>>Autor: José
Maria Santarém
>>Email: jmsantarem@terra.com.br
>>Página na internet: http://www.saudetotal.com/santarem.htm
|