>>Artigos >>Nacionais
>>Drogas Anabolizantes: a situação atual
>>Autor: José Maria Santarém
>>Data de publicação: 14/03/01
Estamos vivendo hoje, com relação às drogas
anabolizantes, uma situação semelhante à que ocorreu com o tabagismo no início
do século: a utilização por grande número de pessoas aparentando boa saúde
tende a estimular a noção de segurança. O cinema pode nos dar uma idéia de
como era difundido o hábito de fumar. Filmes da época quase que
invariavelmente mostravam os artistas fumando. Mais de cinquenta anos foram
necessários para que as estatísticas da incidência de doenças pudessem ser
feitas, e graças à esses dados, hoje está bem estabelecido que o fumo produz
diversos males à saúde. Mesmo assim, muitos continuam fumando. Os fumantes
doentes estão nos hospitais, em casa, ou já não estão entre nós, enquanto
que as pessoas que fumam em público aparentam boa saúde. Geralmente muitos
anos de tabagismo são necessários para que ocorram doenças graves, e mesmo
assim não ocorrerão em todas as pessoas. E antes de adoecer, as pessoas terão
fumado em público durante muitos anos com aparente boa saúde.
No caso das drogas anabolizantes, geralmente
esteróides androgênicos derivados da testosterona, as estatísticas ainda são
precárias devido a que a sua utilização por parcelas consideráveis da população
é relativamente recente. Os estudos experimentais, nos quais drogas são
administradas pelos pesquisadores e seus efeitos analizados, sempre com conclusões
mais confiáveis, são dificultados no caso de anabolizantes hormonais em
pessoas saudáveis por razões éticas. Alguns trabalhos experimentais são
encontrados na literatura, envolvendo a utilização de esteróides
anabolizantes para o tratamento de doenças como anemias, alguns tipos de câncer
e reposição hormonal. Também existem trabalhos experimentais estudando os
efeitos de derivados da testosterona com o objetivo de contracepção masculina.
O tipo de trabalho científico mais frequentemente encontrado sobre o tema são
os relatos de casos clínicos, onde o uso de anabolizantes esteróides é
associado à ocorrência de doenças mais ou menos graves. Esses trabalhos não
permitem concluir que a relação entre as drogas e as doenças sejam do tipo
"causa e efeito" mas no mínimo, existe uma ação desencadeante de
alterações patológicas em pessoas predispostas. Estudos observacionais,
transversais e longitudinais, em grupos de usuários de drogas anabolizantes têm
contribuido para a identificação das intercorrências patológicas mais
frequentes.
Em recente pesquisa, um questionário foi
distribuido para 1.667 pessoas em academias do Reino Unido, e publicado no International
Journal of Sports Medicine, 18:557-62, 1992. Entre os homens interrogados
9,1 % usavam drogas anabolizantes contra 2,3% entre as mulheres. Drogas injetáveis
e orais foram utilizadas, em doses até 34 vezes as doses terapêuticas. Entre
os usuários, apenas 28% eram atletas de competição. O sistema de ciclos
interrompidos foi utilizado por 88% dos usuários, e 77% relataram ter percebido
efeitos colaterais: atrofia do testículo em 56% dos casos, ginecomastia em 52%,
dificuldade para dormir em 37%, hipertensão arterial em 36%, lesões tendinosas
em 26%, sangramento nasal em 22% e resfriados frequêntes em 16%. Entre as
mulheres foram relatados casos de irregularidades menstruais, hipertrofia do clítoris,
diminuição das mamas, engrossamento da voz, acne, queda de cabelo e hirsutismo.
Por ocasião da interrupção dos ciclos foram frequentes os relatos de
tonturas, fraqueza, perda da libido e dores articulares.
Considerando a totalidade dos trabalhos
publicados até o presente, podemos concluir que o uso abusivo de esteróides
anabolizantes apresenta alta incidência de efeitos indesejáveis a curto prazo,
embora nem sempre graves. A longo prazo, doenças graves poderão ser
desencadeadas dependendo das drogas empregadas, do tempo de utilização, das
doses e da predisposição individual.
As drogas de uso oral estão mais associadas
com os tumores do fígado, com a icterícia obstrutiva, com a formação de
cistos hepáticos hemorrágicos, com o desencadeamento da diabetes e com as doenças
cardíacas coronarianas. Os mecanismos de doença são o maior metabolismo hepático
das drogas, aumento da resistência celular à insulina e depressão do
HDL-colesterol. As drogas injetáveis produzem mais ginecomastia e maior tendência
para a trombose, cerebral e periférica, devido à maior formação metabólica
de hormônios femininos estrogênicos. O uso de antiestrogênicos em associação
com as drogas injetáveis, prática comum entre atletas, não é aconselhável
por diminuir o efeito anabolizante e produzir os mesmos efeitos tóxicos dos
esteróides orais. O fechamento prematuro das linhas de crescimento nas epífises
ósseas dos adolescentes, a hipertensão arterial e o câncer da próstata têm
sido relatados em associação tanto com os esteróides orais quanto com os
injetáveis. Todos os esteróides anabolizantes parecem ser igualmente úteis
para estimular a massa muscular, a força e a redução de gordura, embora com
dosagens diferentes.
Durante o uso dos esteróides anabolizantes,
geralmente em períodos de seis à oito semanas, ocorre acentuada diminuição
da fertilidade, aumento da libido e diminuição da testosterona endógena.
Admite-se que a depressão e a letargia frequentemente relatadas ao interromper
a droga possam estar relacionadas com baixos níveis de testosterona endógena.
A impotência sexual parece ser mais consequência de fenômenos depressivos, às
vezes intensos, e que podem levar ao suicídio. Muitos usuários ficam
dependentes dos esteróides por conta do mal-estar produzido pela supressão da
droga. Frequentemente é necessária a intervenção psiquiátrica. O retorno
aos níveis normais de produções hormonal costuma ocorrer em cerca de três
meses após o fim do ciclo, mas existem relatos de hipogonadismo permanente
consequente à muitos anos de utilização contínua de esteróides
anabolizantes. A fertilidade normal pode tardar de seis meses à um ano,
justificando a proposta de utilização dos esteróides androgênicos como
anticoncepcionais masculinos. A utilização de gonadotrofina coriônica ao
final de cada ciclo, também prática comum entre atletas para estimular os testículos
parecer ser normalmente desnecessária e aumenta a incidência de ginecomastia.
Quando constatado o hipogonadismo, o tratamento com gonadotrofina necessita ser
bastante prolongado.
As mortes que têm sido associadas aos esteróides
anabolizantes parecem ser decorrentes do uso contínuo prolongado ou de doses
abusivas. As causas dos óbitos foram infartos cardíacos, trombose cerebral,
hemorragia hepática, sangramento de varizes do esôfago, miocardiopatia, metástases
de tumores da próstata e do fígado, infecções por depressão da imunidade ou
contaminação por medicamentos falsificados (AIDS e hepatite).
Drogas alternativas como o GH (hormônio do
crescimento) também não são seguras. A incidência do câncer de próstata
aumenta de 3 a 4 vezes e ocorre com frequência o hipotireoidismo, com depressão
do metabolismo e tendência para a obesidade, cardiopatia, impotência sexual,
ginecomastia, sindrome do túnel do carpo, entre outros problemas. Além disto,
o custo mensal de utilização de GH pode chegar aos US$ 4.000,00.
Uma importante questão é saber se existe
maneira segura para a utilização de esteróides androgênicos. Admite-se que
doses menores e utilização interrompida tenham menor probabilidade de produzir
efeitos indesejáveis, mas a quantificação dos riscos individuais ainda não
é possivel. Duas situações são indesejáveis no presente momento: exagerar o
risco dos anabolizantes hormonais e ignorar a possibilidade de ocorrência de
doenças graves.
Com relação aos riscos, pode-se imaginar que
na melhor das hipóteses será possivel chegar à esquemas de administração
com segurança semelhante à dos anticoncepcionais femininos. A utilização de
esteróides estrogênicos por mulheres de todo o mundo com finalidade de
contracepção tem efeitos colaterais muito semelhantes aos dos anabolizantes
hormonais, mas ocupam muito menos espaço na mídia. A nossa sociedade parece
considerar a contracepção uma razão justificável para que as mulheres corram
riscos para a saúde, mesmo com as estatísticas demonstrando a ocorrência de
doenças graves. Por outro lado, atletas e treinadores despreparados costumam
desconsiderar os riscos dos esteróides, baseados na aparente boa saúde de
alguns campeões. Essa atitude é indefensável e coloca muitos jovens em situação
crítica para a saúde.
No caso da musculação, a noção de que
aumentos significativos de massa muscular são impossiveis sem o uso de drogas
contribui para agravar a situação. O que ocorre é que todas as pessoas
apresentam progressos com treinamento bem orientado e alimentação adequada,
mas alguns têm potencial para massa muscular muito maior do que outros. Apesar
de que as drogas anabolizantes podem sem dúvida favorecer o crescimento dos músculos,
elas não são formadoras de campeões. Olhar para um campeão de musculação e
atribuir todo o seu sucesso à drogas é uma injustiça. Na realidade trata-se
do resultado de treinamento dedicado e alimentação cuidadosa atuando em base
genética favorável. Os efeitos das drogas são aditivos à esses fatores básicos.
Nas academias é comum encontrarmos pessoas sem volume e qualidade musculares
apesar do uso de anabolizantes hormonais e por outro lado, pessoas muito grandes
e fortes que jamais utilizaram drogas. Estes são poucos, como também são
poucos os grandes campeões, porque o potencial genético para grande massa
muscular é raro.
A situação atual pode ser resumida da
seguinte maneira: quem está utilizando drogas está correndo riscos de saúde
ainda não bem conhecidos. Esquemas racionais de utilização são mais seguros
mas não totalmente isentos de riscos. Assim sendo, a decisão deverá ser
sempre uma decisão pessoal. A pessoa deve ponderar os riscos e benefícios e
decidir racionalmente. Aos profissionais compete informar e não influenciar na
decisão.
No caso de atletas de competição, o uso de
drogas transcende a questão da saúde individual. As drogas que favorecem o
desempenho nas diversas modalidades são consideradas éticamente indesejáveis
e portanto ilícitas, independentemente de produzirem danos para a saúde. Aos
dirigentes esportivos cabe coibir o seu uso enquanto prevalecerem as regras
atuais, cuja validade moral poderá ou não mudar com o passar do tempo.drogas,
anabolizantes, bombas, esteróides, hormônios, hormonal, deca, winstrol,
testosterona, equipoise, durabolin, hemogenin
>>Autor: José
Maria Santarém
>>Email: jmsantarem@terra.com.br
>>Página na internet: http://www.saudetotal.com/santarem.htm
|