|
>>Artigos >>Nacionais
>>A responsabilidade profissional nas informações sobre atividade
física para a população
>>Autor: José Maria Santarém
>>Data de publicação: 14/03/01
Ao escrever trabalhos destinados à veículos
de informação especializados, todo profissional bem formado sabe que as afirmações
do texto devem estar fundamentadas na literatura científica internacional. No
entanto, com alguma frequência, bons e reconhecidos profissionais não observam
este preceito técnico e ético quando se dirigem ao público leigo. Na área da
atividade física, impressões pessoais e até mesmo preconceitos
extra-universitários têm sido transmitidos à população em veículos
informativos de grande circulação, com a justificativa de que são posicões
científicas. Deve ser lembrado que o adjetivo "científico" para uma
afirmação somente pode ser aplicado quando existe coerência com trabalhos
publicados na literatura especializada internacional, realizados com o rigor dos
métodos de investigação experimental ou observacional. Tais métodos incluem
sempre a análise estatística dos resultados, com testes de significância. Um
raciocínio fisiológico ou fisiopatologico qualquer, que leva à alguma conclusão,
por mais lógico que seja, constitui apenas uma hipótese teórica. As hipóteses
devem ser testadas em protocolos práticos antes de permitir conclusões.
Particularmente com relação aos exercícios
resistidos, temos encontrado em veículos de informação popular afirmações
sem qualquer fundamentação verdadeiramente científica, atribuidas a
respeitados profissionais. Com a devida ressalva de que muitas vezes as afirmações
são mal interpretadas pelos entrevistadores, o resultado prático é um
desserviço à comunidade. Parcelas consideráveis da população podem ser
afastadas da atividade sem justificativa real, e os profissionais e empresas do
setor sofrem prejuízos materiais.
Em 1995, o National Institutes of Health, o
Centers for Disease Control and Prevention, e o American College of Sports
Medicine realizaram congressos internacionais para a discussão de toda a
literatura científica sobre atividade física. Com base nas publicações
decorrentes desses encontros, e na literatura disponível, comentamos a seguir
algumas afirmações sem base científica sobre atividade física, recentemente
coletadas em revistas, jornais e televisão.
"Atividade física mínima é o
ideal". O consenso estabelecido foi que atividade física
suficiente para gastar pelo menos 200 Kcal. em média diária já é suficiente
para diminuir acentuadamente o risco estatístico de desenvolvimento de doenças
crônicas. No entanto, pessoas mais ativas apresentam risco ainda menor, pelo
que a população deve ser estimulada a aumentar progressivamente o seu gasto
calórico com atividade física, desde que respeitem a capacidade de recuperação
do organismo.
"Exercícios aeróbios são mais
saudáveis". Os trabalhos analizados levaram à conclusão de que
os diversos tipos de atividade física apresentam os mesmos benefícios
salutares, quaisquer que sejam as características do metabolismo energético e
da contração muscular, diferindo apenas com relação ao tipo e ao grau de
aptidão física desenvolvida. As evidências sugerem que até mesmo o
desenvolvimento das doenças cardio-circulatórias é dificultado por atividades
físicas que não melhoram o condicionamento aeróbio.
"A qualidade de vida é melhor
estimulada pelos exercícios aeróbios". A força muscular e a
flexibilidade foram identificadas como as qualidades de aptidão mais
importantes para a qualidade de vida, entendida como a capacidade de realizar as
tarefas da vida diária sem limitações de desempenho. No caso da força
muscular, sua importância transcende as nescessidades biomecânicas para a
realização das atividades diárias, mas também é fundamental para a
homeostase hemodinâmica nos esforços envolvidos, aliviando o estresse cárdio-circulatório.
"Os exercícios com pesos devem ser
limitados a pessoas jovens e sadias". O NIH Consensus Statements
afirma textualmente: "os exercícios com pesos são particularmente
indicados para pessoas idosas e debilitadas". Isto se deve não apenas aos
eficientes estímulos dos exercícios resistidos para a massa muscular,
densidade óssea e flexibilidade, mas à alta segurança geral e cardiológica
atualmente reconhecidas. Desde que se evitem as contrações isométricas com
cargas máximas, a pressão arterial sobe dentro dos limites de segurança, e a
frequência cardíaca aumenta muito pouco, devido ao carater interrompido da
atividade. Pessoas idosas e enfraquecidas não devem ser estimuladas a caminhar
antes de um programa para fortalecimento muscular, devido ao alto índice de
quedas observados nessas condições.
"Os exercícios com pesos apresentam
grande risco de lesões". As estatísticas demonstram que a incidência
de lesões musculo-esqueléticas é muito baixa nos exercícios com pesos bem
orientados. Lesões ocorrem em três situações particulares: treinamento não
supervisionado, uso de equipamento mal projetado e cargas excessivas. Não
apenas as cargas podem ser facilmente adaptadas à condição física
individual, mas também as amplitudes dos movimentos e todos os outros fatores
do treinamento. Não ocorrem mudanças de direção, acelerações e desacelerações
bruscas dos movimentos, e o risco de quedas é mínimo.
"Os exercícios com pesos prejudicam
o crescimento dos adolescentes". Muitos trabalhos foram realizados
para esclarecer esta importante questão, e não foram evidenciados efeitos
nocivos ao crescimento estatural ou à integridade das cartilagens articulares.
Até mesmo crianças pré-puberes em treinamento com pesos foram estudadas, sem
que se observassem quaisquer prejuizos para a saúde ou para a aptidão física.
Ao contrário, evidências sugerem que o treinamento com pesos em crianças
praticantes de esportes em geral pode diminuir o risco de lesões.
"O treinamento com pesos diminui a
flexibilidade e a velocidade dos praticantes". Diversos trabalhos
documentam os efeitos opostos à essas afirmações. Além disto, a experimentação
empírica de atletas e treinadores de diversas modalidades esportivas também
contraria essa hipótese. Lutadores, velocistas e muitos outros atletas,
incluindo os dedicados à provas de longa duração, têm o seu desempenho
sensivelmente favorecido pelo treinamento com pesos.
"Apenas os exercícios aeróbios
favorecem a redução da gordura corporal". Não existem trabalhos
científicos que justifiquem essa afirmação. Todos os livros clássicos de
fisiologia e metabolismo esclarecem que qualquer tipo de exercício favorece o
emagrecimento, por gastar calorias e ativar o metabolismo. Diversos trabalhos
comparando exercícios aeróbios e anaeróbios documentam mobilização de
gordura nos mesmos níveis. A explicação é que qualquer que sejam os
substratos energéticos mobilizados durante a atividade física, a reposição
dos seus depósitos é prioridade metabólica durante a alimentação
subsequente aos exercícios. Caso faltem calorias no balanço calórico diário,
haverá mobilização do tecido adiposo. Em repouso.
"Exercícios com pesos produzem
hipertensão arterial e prejudicam o coração". Os trabalhos científicos
documentam redução da pressão arterial em repouso em pessoas treinadas com
pesos, tal como ocorre com todas as outras formas de atividade física. Nunca se
documentaram efeitos dos exercícios resistidos prejudiciais ao coração.
"Não é possivel desenvolver
grandes músculos sem drogas anabolizantes". Todas as pessoas pós-púberes
conseguem aumentar a massa muscular, até mesmo mulheres nonagenárias. O grau
de hipertrofia obtido depende basicamente de características genéticas favoráveis.
Muitos indivíduos abusam de drogas anabolizantes na tentativa de superar genética
desfavorável e não conseguem grande massa muscular. Por outro lado, é comum
encontrarmos praticantes de musculação que não se dedicam às competições e
que conseguiram grande massa muscular sem anabolizantes.
"Musculação de competição não
é saudável". Caso essa afirmação seja motivada pelo uso de
drogas, deve ser extendida às competições de todas as modalidades esportivas.
"O desejo de aumentar a massa
muscular é doentio". Comentários dispensáveis.
Para benefício de todos, esperamos que os
profissionais avaliem melhor as suas declarações em veículos de comunicação
popular.
>>Autor: José
Maria Santarém
>>Email: jmsantarem@terra.com.br
>>Página na internet: http://www.saudetotal.com/santarem.htm
|