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>>Atualização em exercícios resistidos:
saúde e qualidade de vida
>>Autor: José Maria Santarém
>>Data de publicação: 14/03/01
Vários trabalhos recentes têm documentado
importantes benefícios do treinamento com pesos para a reabilitação e
profilaxia de incapacidade física em pessoas idosas (Ades
et al, 1996; Dupler
& Cortes, 1993; Fiatarone
et al, 1990; Fiatarone
et al, 1990; Frontera
et al, 1988; Heislen
et al, 1994; Judge
et al, 1994; McCartney
et al, 1993; Menkes,
et al, 1993; Meredith
et al, 1992; Pyca
et al, 1994; Thompson,
1994). A análise destes trabalhos levanta uma questão de alta relevância
para a medicina esportiva: até que ponto as restrições que habitualmente se
fazem com relação ao trabalho com pesos para objetivos de aptidão e qualidade
de vida estão bem fundamentadas? Com o objetivo de orientar o raciocínio,
faremos inicialmente algumas considerações conceituais, e em seguida analisaremos
os benefícios do aumento de massa muscular e particularidades fisiológicas do
treinamento de força.
Musculação significa estritamente aumento de
massa muscular. Como este objetivo é mais facilmente obtido por meio dos exercícios
resistidos, o termo costuma ser utilizado para designar o próprio treinamento
com pesos. Neste sentido, a musculação pode ter muitas aplicações: preparação
de atletas e esportistas em geral (que invariavelmente necessitam de massa
muscular), modelagem do corpo tanto do homem quanto da mulher, reabilitação, e
desenvolvimento de aptidão física. A competição em musculação caracteriza
o culturismo (fisiculturismo em espanhol e body-building em inglês), uma
modalidade desportiva solidamente estruturada internacionalmente.
Aumento da massa muscular é a adaptação
morfológica mais evidente induzida pelos exercícios com pesos. Força é a
adaptação funcional que sempre acompanha os níveis de massa muscular. Para
entendermos melhor a importância da força muscular na vida diária das
pessoas, o idoso é o modelo ideal. Frequentemente o idoso é um sedentário de
longa data, que perdeu aptidão física geral, acentuadamente massa muscular e
força. Sabe-se que flexibilidade e força diminuidas são as maiores limitações
para as atividades da vida diária (Fiatarone
et al, 1994; Fiatarone
et al, 1990; Guralnick
et al, 1995). Agachar e levantar, subir e descer escadas, levantar objetos
muitas vezes pesados, banhar-se e vestir-se são exemplos de atividades do
cotidiano muito prejudicadas do ponto de vista biomecânico pela diminuição da
força e da flexibilidade. Evitar quedas nas situações de desequilíbrios do
corpo é outra função importante da força e da flexibilidade, aspecto
fundamental para a integridade física dos idosos (Fiatarone
et al, 1994; Fiatarone
et al, 1990; Guralnick
et al, 1995). Estudos longitudinais demonstraram que idosos aptos para a
vida diária mas com baixos níveis de força muscular, evoluem rapidamente para
a inaptidão, com alto índice de quedas e suas consequências muitas vezes
fatais (Guralnick
et al, 1995). O treinamento com pesos é a maneira mais eficiente para
aumentar a força muscular e a densidade óssea. A flexibilidade aumenta dentro
dos limites de amplitude que eventuais processos degenerativos possam permitir (Dupler
& Cortes, 1993; Frontera
et al, 1988; Gettman,
et al, 1978; Heislen
et al, 1994; Karlson
et al, 1993; Menks
et al, 1993; Meredith
et al, 1992; Pyca
et al, 1994; Rians
et al, 1987; Sitta
et al, 1994; Smith
& Rutherford, 1993; Stone,
1988; Thompson,
1994; Webb,
1990; Wilmore
et al, 1978). A sobrecarga tensional dos exercícios com pesos estimula a síntese
de proteina contrátil no músculo, o aporte de matriz calcificada no osso e a
proliferação do tecido conjuntivo do endomísio, aumentando assim as
propriedades visco-elásticas do músculo (Sitta
et al, 1994; Stone,
1988; Vandemburg,
1987).
Um aspecto apenas recentemente documentado é a
importância da força para a manutenção da homeostase hemodinâmica na vida
diária. Verificou-se que idosos com pouca força muscular apresentavam aumentos
acentuados e perigosos de frequência cardíaca e pressão arterial na realização
de atividades como subir escadas e levantar janelas. Esta situação foi
revertida apenas com o aumento da força muscular induzido pelo treinamento com
pesos (McCartney
et al, 1993). A explicação é que a homeostase é afetada na razão direta
da intensidade dos esforços, e o grau de intensidade é dado basicamente pelo
porcentual de capacidade contrátil disponível que está sendo utilizado (Chwalbinska-Moneta
et al, 1989; Marcinick
et al, 1991). Intensidade do esforço é portanto um conceito relativo, e
para pessoas com pouca força muscular, atividades comuns na vida diária podem
ser grandes esforços. Situações do cotidiano observadas por todos ilustram
este mecanismo fisiológico: pessoas fortes carregam objetos pesados conversando
normalmente, enquanto que pessoas mais fracas fazem a mesma tarefa com grande
dificuldade e evidente dispnéia. O treinamento com pesos desenvolve não apenas
a força muscular e a flexibilidade, mas a capacidade de prolongar esforços,
tanto de alta quanto de baixa intensidade, apesar de não aumentar a capacidade
aeróbia das pessoas (Ades
et al, 1996; Dudley,
1988; Dupler
& Cortes, 1993; Frontera
et al, 1994; Hickson
et al, 1988; Marcinik
et al, 1991; Thompson,
L.V., 1994; Wilmore
et al, 1978). O tipo de aptidão física desenvolvido pela musculação é
particularmente útil para o trabalho braçal, doméstico ou não, que envolve
esforços basicamente anaeróbios. Prolongar esforços de média intensidade,
como correr, pedalar ou nadar longas distâncias (o que exigiria grande
capacidade aeróbia) não faz normalmente parte da vida diária das pessoas.
Caminhar é um esforço suave, exeto para pessoas muito debilitadas, não
exigindo portanto grande capacidade aeróbia para ser prolongado.
Na área do treinamento desportivo também estão
surgindo novos conhecimentos relativos à importância da força muscular, mesmo
para atletas de resistência como corredores e ciclistas de longa distância. O
aumento da capacidade contrátil de atletas de resistência se acompanha do
aumento do limiar de lactato, parâmetro indicativo da diminuição da
intensidade relativa dos esforços (Marcinik
et al, 1991). Estão documentados aumentos entre 10 e 20 % no desempenho de
ciclistas e corredores em provas de longa duração, apenas com a introdução
do treinamento de força, e sem aumentos do VO2 máximo (Hickson
et al, 1988). Uma hipótese para explicar esse fato é que a capacidade
contrátil aumentada nas fibras vermelhas permitiria que maior quantidade de
trabalho fosse realizado aerobiamente, antes que as fibras brancas fossem
recrutadas.
No que diz respeito à segurança dos exercícios
com pesos, vários aspectos anteriormente controvertidos estão sendo
esclarecidos por recentes trabalhos. Os exercícios utilizados no treinamento
para musculação são isotônicos. Quando os exercícios são realizados até a
exaustão, surgem fases isométricas. Os esforços isométricos não possuem
efeitos nocivos para pessoas saudáveis, mas induzem sobrecargas que devem ser
evitadas em situações de doenças ou despreparo físico. Evitar cargas que
levem à esforço isométrico é o cuidado básico no treinamento com pesos em
situações especiais de saúde. Da mesma maneira, correr, nadar ou pedalar em
velocidades altas podem levar à sobrecargas indesejáveis em alguns casos. No
treinamento com pesos, o controle que se pode ter sobre fatores como a carga, a
amplitude, a velocidade, a duração e a frequência dos exercícios é total,
permitindo que os esforços sejam adaptado às condições físicas de cada
praticante. Esta plasticidade das características do treinamento com pesos são
particularmente úteis para os exercícios de pessoas debilitadas.
Exemplificando, as cargas podem ser graduadas para valores tão baixos que,
comparativamente, o suporte do peso do corpo para caminhar induz maior
sobrecarga ao organismo. No caso de pessoas acometidas por processos
degenerativos articulares, exercícios de pequena amplitude com cargas razoáveis
são terapêuticos, ao contrário dos exercícios sem carga e com grande
amplitude, que podem traumatizar os tecidos. Estudos transversais com
levantadores de peso olímpicos demonstraram incidência de artrose de coluna
igual à da população geral, mas com uma diferença fundamental: os atletas
tinham muito menos sintomas (Fitzgerald
& McLatchie, 1990). Estes resultados confirmam o relevante componente
genético da artrose, e a importância de músculos fortes para a profilaxia
eficiente dos sintomas dolorosos. Com relação aos traumas, deve ser
esclarecido que o índice de lesões no treinamento bem orientado é muito
baixo, provavelmente devido à ausência de movimentos bruscos e choques, e mínimo
risco de quedas. Lesões ocorrem com maior frequência no treinamento sem
orientação ou em movimentos com cargas máximas (Mazur
& Risser, 1993; Mundt
et al, 1993; Rians
et al, 1987; Risser,
1990; Sewall
& Micheli, 1986; Webb,
1990). Ainda abordando o sistema músculo-esquelético, é de fundamental
importância realçar o fato de que todos os trabalhos que pudemos levantar e
que estudaram o treinamento com pesos em adolescentes e crianças pré-púberes,
não documentaram qualquer efeito nocivo ao crescimento ósseo ou à integridade
articular (Rians
et al, 1987; Risser,
1990; Servedio
et al, 1985; Sewall
& Micheli, 1986; Webb,
1990).
O sistema cardiovascular reage às sobrecargas
de treinamento impostas pelos exercícios resistidos de maneira fisiológica (Crawford
& Maron, 1992; Fleck,
1988). O coração de pessoas treinadas com pesos por muitos anos é
absolutamente normal e saudável (Crawford
& Maron, 1992; Effron,
1989; Fleck,
1988; MacFarlane
et al, 1991; Menapace
et al, 1982), além de ser melhor adaptado para situações de esforços
isométricos de alta intensidade, comparativamente com o coração de pessoas
treinadas apenas aerobiamente (Ben-Ari
et al, 1993). Tais esforços são relativamente frequentes na vida diária
de todas as pessoas, ao contrário dos esforços prolongados de média
intensidade. A hipertrofia do miocárdio não se acompanha de redução das câmaras
cardíacas, tal como ocorre na doença hipertensiva crônica (Crawford
& Maron, 1992; Fleck,
1988). Em nosso levantamento bibliográfico não encontramos qualquer referência
à aumento da pressão arterial em repouso. Ao contrário, existem citações de
redução deste parâmetro com o treinamento (Hagberg
et al, 1984; Webb,
1990). Os aumentos da pressão arterial em treinamento ficam dentro dos
limites de segurança, mesmo com sobrecarga tensional em torno de 80 % da máxima,
desde que se evitem as contrações isométricas e a apnéia (Effron,
1989; Ghilarducci
et al, 1989; Kelemen,
1989; Sale
et al, 1994; Webb,
1990). Mesmo em treinamento intenso, a frequência cardíaca não costuma
ultrapassar 70 % da frequência cardiaca máxima, o que leva a um duplo produto
de baixo risco cardíaco (Effron,
1989; Ghilarducci
et al, 1989; Kelemen,
1989). A relação oferta / demanda de oxigênio para o miocárdio é mais
favorável nos exercícios com pesos do que nos exercícios aeróbios de média
intensidade. Pessoas que apresentaram arritmias e sinais de isquemia no teste
ergométrico em esteira suportaram treinamento com pesos com 80 % de carga máxima,
sem qualquer sinal de sofrimento do miocárdio (Ghilarducci
et al, 1989). A fórmula sanguínea se altera favoravelmente com relação
aos fatores de risco para doença ateromatosa, tal como ocorre com o treinamento
aeróbio (Cardoso
et al, 1994; Hurley,
1989; Hurley
et al, 1984; Yki-Jarvinen
et al, 1984; Giada
et al, 1996).
A redução de gordura corporal é estimulada
tanto pelos exercícios aeróbios quanto pelos anaeróbios como o ginástica com
pesos (Broeder
et al, 1992; Brown
& Wilmore, 1974; Fahey
& Brown, 1973; Gettman
et al, 1978; Gettman
& Pollock, 1981; Mayhew
& Gross, 1974; Misner,
et al, 1974; Wilmore,
1974; Wilmore
et al, 1978). Os livros clássicos de fisiologia do exercício apresentam as
características da mobilização de gordura induzida pela atividade física.
Quaisquer que sejam os substratos energéticos utilizados durante a atividade, a
sua reposição será priorizada na realimentação subsequente os exercícios.
Havendo excesso ou falta de ingestão calórica, haverá, respectivamente,
aumento ou redução na quantidade de reserva energética (tecido adiposo). O
metabolismo basal volta aos níveis de repouso minutos após os exercícios aeróbios
mas permanece ativado durante várias horas após os exercícios anaeróbios (Gaesser
& Brooks, 1984). Pode-se dizer que os ácidos graxos são mobilizados
durante os esforços aeróbios e após os esforços anaeróbios. Qualquer tipo
de exercício é útil para a redução da gordura corporal por gastar calorias
e por dificultar a redução do metabolismo basal durante dietas hipocalóricas.
Considerando-se que cerca de 2/3 do gasto calórico diário corresponde à taxa
metabólica basal, admite-se que a elevação do metabolismo produzido pelo
aumento da massa magra seja uma vantagem importante dos exercícios resistidos
no sentido de facilitar a mobilização de gordura em repouso (Bossealer
et al, 1994; Broeder
et al, 1992; Melby
et al, 1993; Evans,
1996).
Distúrbios posturais e doenças pulmonares crônicas
são algumas situações onde os aumentos de força e elasticidade muscular que
acompanham a hipertrofia podem justificar a utilização de exercícios com
pesos. Nos casos de diabetes, atividade física em geral é útil não apenas em
função da captação de glicose insulino-independente durante os exercícios,
mas também devido ao aumento da sensibilidade insulínica nos músculos. Os
exercícios com pesos parecem ser particularmente úteis devido ao aumento da
massa muscular, o que leva à uma maior quantidade de tecido captador de
glicose, mesmo em repouso (Pollock
& Wilmore, 1993; Yki-Jarvinen
et al, 1984).
Um aspecto que pode confundir as pessoas é a
existencia de trabalhos documentando problemas de saúde em atletas de força.
No entanto, o fator etiológico destes problemas invariavelmente são as drogas,
principalmente os esteróides anabolizantes, e não o treinamento com pesos.
Problemas como a interrupção do crescimento dos adolescentes, hipertensão
arterial, hipertrofia concêntrica do miocárdio, dislipidemias, alterações
hormonais, distúrbios comportamentais, e outros, são todos reconhecidamente
produzidos pelo abuso de drogas por atletas de diversas modalidades esportivas.
Diante dos atuais conhecimentos, defendemos o
ponto de vista de que o treinamento com pesos deve ser considerado a forma ideal
e padrão de preparação física para todas as pessoas. Pelas suas qualidades,
atende com segurança e eficiência às necessidades de condicionamento físico
mesmo das pessoas mais debilitadas. Na medida em que a condição física geral
for melhorando, serão atingidos níveis de aptidão compatíveis com diferentes
atividades, dentre elas as diversas modalidades esportivas, com suas abordagens
específicas de treinamento.
>>Autor: José
Maria Santarém
>>Email: jmsantarem@terra.com.br
>>Página na internet: http://www.saudetotal.com/santarem.htm
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