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>>Atualização em exercícios resistidos: exercícios com pesos e
saúde cardiovascular
>>Autor: José Maria Santarém
>>Data de publicação: 14/03/01
Sobre os
mecanismos pelos quais todas as formas de atividade física
podem beneficiar a saúde geral e cardiovascular.
A prática esportiva dos exercícios com pesos,
conhecida como musculação, foi no passado objeto de muitas opiniões desfavoráveis
com relação aos seus efeitos na saúde e na aptidão física. Invariavelmente,
tais opiniões não eram baseadas em dados científicos, objetivos e mensuráveis,
mas apenas em raciocínios fisiológicos ou fisiopatológicos. Com o acúmulo de
evidências científicas que não endossaram os supostos inconvenientes, e com a
popularização da modalidade, críticas deixaram de ser uma ocorrência comum,
pelo menos a nível de profissionais. Atualmente vivemos um período
caracterizado por farta documentação de efeitos salutares dos exercícios com
pesos, mas ainda nos deparamos com a desinformação e com a resistência em
aceitar mudanças conceituais.
Um aspecto em que ocorre desinformação e
resistência à reconsiderações são os efeitos dos exercícios com pesos na
saúde cardiovascular. Com certa frequência encontramos a afirmação de que "musculação
é bom para a estética, mas as coronárias exigem exercícios aeróbios".
Aceitar ou não esta afirmação não é uma questão de opinião pessoal.
Trata-se de aceitar ou não o posicionamento das principais entidades científicas
internacionais no sentido de que qualquer tipo de exercício contribui para
evitar doenças cardíacas coronarianas.
Em recentes revisões da literatura científica
sobre atividade física e saúde, o National Institutes of Health e o Centers
for Disease Control and Prevention, órgãos do governo norte-americano,
concluiram que todos os tipos de exercícios parecem ter os mesmos efeitos benéficos
para a saúde geral e do coração. Estas conclusões estão solidamente
fundamentadas em critérios epidemiológicos clássicos como consistência, força,
sequência temporal, dose-resposta e coerência. A ação benéfica dos exercícios
para a saúde cardiovascular não parece ser relacionada com maior vascularização
cardíaca, como já se imaginou. Os mecanismos de atuação parecem ser o alívio
de estresse emocional, o combate à obesidade pelo maior gasto calórico e pelo
aumento da taxa metabólica basal, o combate ao diabetes pelo aumento da
sensibilidade das células à insulina e pelo estímulo ao metabolismo dos
carboidratos, a redução dos níveis de pressão arterial devido à redução
da sensibilidade dos vasos à ação das catecolaminas, a menor tendência às
arritmias pela redução da sensibilidade do miocárdio à ação adrenérgica,
o aumento nos níveis de HDL-colesterol, a redução dos níveis séricos de
triglicerídeos, o estímulo à fibrinólise e a redução da agregação
plaquetária. Todos esses efeitos são conseguidos também por meio dos exercícios
interrompidos, que não melhoram a condição aeróbia, tal como os exercícios
com pesos. Atualmente o American College of Sports Medicine reconhece que
qualquer tipo de exercício tem os mesmos efeitos salutares, ao contrário do
que a entidade preconizava em recomendações anteriores a 1995, que enfatizavam
a importância de exercícios aeróbios para a saúde. A campanha Agita São
Paulo da Secretaria de Saúde do Estado, em perfeita sintonia com os novos
conhecimentos, recomenda qualquer tipo de exercício, sem excessos, para
melhorar os níveis de saúde geral e cardiovascular da população.
Com relação à segurança cardiovascular,
quando bem realizados, os exercícios com pesos apresentam baixo risco de
acidentes vasculares cerebrais e coronarianos. A eficiência do treinamento
exige pesos relativamente elevados, que permitem poucas repetições, mas desde
que não se façam esforços absolutamente máximos, que tendem para a isometria
em apnéia, a pressão arterial aumenta dentro de níveis seguros. Com os
intervalos de decanso entre as séries sendo relativamente longos, geralmente
acima de um ou dois minutos, a frequência cardíaca aumenta muito pouco. Assim
sendo, o duplo-produto (pressão arterial sistólica x frequência cardíaca)
dos exercícios com pesos é baixo, já tendo sido demonstrado que o caminhar rápido
em plano levemente inclinado apresenta estresse cardiocirculatório maior do que
o treinamento com pesos para hipertrofia muscular com 75% de carga máxima.
A boa segurança cardiológica do treinamento
com pesos bem orientado, mesmo para cardiopatas estáveis e bem avaliados,
estimula a sua crescente utilização por pessoas idosas, cuja perda de massa
muscular, massa óssea e flexibilidade, comprometem gravemente a independência
funcional. Recente estudo demonstrou que idosos que envelheceram praticando
corrida ou natação apresentaram os mesmos níveis de hipotrofia muscular
encontrados em idosos sedentários. Ao contrário, idosos que envelheceram
praticando exercícios com pesos conservaram a massa muscular. Um conceito atual
em reabilitação geriátrica é não recomendar caminhadas para idosos
enfraquecidos antes de um programa de fortalecimento muscular com pesos, no
sentido de evitar quedas e fraturas graves.
Aspecto importante é que os aumentos perigosos
de pressão arterial e de frequência cardíaca que muitos idosos apresentam nas
atividades da vida diária apenas conseguem ser revertidos com os aumentos de
massa muscular e força, induzidos pelos exercícios com pesos. O
condicionamento aeróbio não reverte a situação. A explicação é que para
pessoas enfraquecidas, os esforços da vida diária são de alta intensidade,
determinando respostas hemodinâmicas excessivas. Para pessoas mais fortes, os
mesmos esforços são de menor intensidade, exigindo menor grau de esforço
muscular, e consequentemente induzindo menores alterações de pressão arterial
e frequência cardíaca.
Pode ser oportuno lembrar que os exercícios
com pesos não apresentam os fatores predisponentes ao trauma, tão comuns na
maioria das atividades esportivas: impactos, acelerações, desacelerações,
torções, risco de trauma direto e de quedas. A carga, desde que não
excessiva, não é um fator de lesão. Ao contrário, apresenta efeitos tróficos,
estimulando o fortalecimento dos tecidos.
Em resumo, a situação atual do conhecimento
científico permite afirmar que qualquer tipo de atividade física tem efeitos
semelhantes e importantes para a promoção da saúde geral e cardiovascular. O
que se espera dos profissionais da saúde é que estimulem na população um
estilo de vida mais saudável, que inclua a atividade física que for mais agradável
para cada pessoa, em volume e intensidade adequados à sua condição física.
Radicalizar a indicação para um tipo de atividade mais sistematizada, como os
exercícios aeróbios, certamente não é o caminho para a generalização do hábito
do exercício. Mesmo porque, se compararmos a segurança e os benefícios dos
diversos tipos de atividade física, veremos que a melhor associação de
qualidades será apresentada pelos exercícios com pesos.
>>Autor: José
Maria Santarém
>>Email: jmsantarem@terra.com.br
>>Página na internet: http://www.saudetotal.com/santarem.htm
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